Anamnesis

Totum [Galeria Prova de Artista, Março, 2010]

Ricardo Pacheco nasceu em 1974 e fez o seu percurso académico na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Vive e trabalha em Lisboa, mas os seus trabalhos não têm um lugar fixo nem surgem de onde se possa indicar — pertencem exclusivamente à pintura. Pintura do interior. Não de um interior gasto e comum de novas tendências mas um interior completamente perene e genuíno.

O trabalho do Ricardo é honesto, inteiro e sincero. É de um desenhador hábil que desde muito cedo deixa cair o traço que empresta à sua imaginação e nos mostra os outros que também somos. Sempre teve uma grande facilidade para a representação visual do mundo que o rodeia, mas é a sua imaginação que começa cada vez mais a ter lugar nas obras que mostra: uma relação pura e desprotegida com essa coisa que é o mundo do imaginar, da imagem que não tem forma, corpo ou matéria, e mergulha nela com a mesma intensidade como precisa d’água para viver. Mas a sua obra nada tem de abstracta.

O que mais nos toca é o rosto, o rosto de um amigo, o rosto da mãe, se ainda o temos connosco… o rosto da nossa casa, da terra que nos diz. O rosto ancestral do mundo, aquela fisionomia inefável que diz Tu e Eu. A relação pessoal que temos com certos lugares. A nossa natureza, quer ela seja urbana ou tão simplesmente natural. A nossa própria natureza enquanto paisagem de um mundo que dificilmente chegamos a conhecer. Que forma têm as coisas? O que é o formal? Ricardo não procura o rosto meramente dito, ou tão facilmente reconhecível, mas um que lhe diga quem é e onde está com mais lealdade. Na verdade, o rosto é uma máscara que nos impede de atingir o reconhecível, mas estamos tão habituados a fazê-lo que é por instantes de segundo que isso acontece e não chegamos a ter consciência disso. Aquilo que nos é mais familiar é o que de mais estranho nos é dado acesso.

De frente de uma tela branca temos tendência para procurar. «O que é que eu vejo, onde está o rosto?» E essa força que nos leva à procura é o que impede o encontro. Tão simples como encontrar exactamente o que procurávamos, e perder o que não sabíamos que lá estava. Será que sabemos quem somos? Pode argumentar-se que somos quem achamos que somos. Mas isso é o que achamos que somos, não o que somos, e o que achamos que somos não é o que deixamos perdido…

O encontro é a metodologia deste artista que não procura, que se deixa encontrar a si e por si. O encontro de si mesmo vezes e vezes sem conta, coado pelas múltiplas relações com o mundo e com as pessoas. É na sua incansável abertura à vida e ao que nela advém, nos ritmos do corpo, nos passos dos animais e nos voos auspiciosos das aves, nas árvores , nas trocas, na fertilidade da constante partilha com quem gosta de cultivar Nas longas conversas com os seus amigos.

Estas pinturas e, sobretudo, estes desenhos, dão-nos todos estes percursos intensos, dão-nos o que está lá dentro e a maturidade sacra do encontro. A consistência da obra do Ricardo obriga-nos a olhar toda ela para poder observar uma pequena série como esta. E o mesmo acontece no sentido inverso, tal é a sua unidade. Os desenhos que o artista agora nos oferece, que dão nome à sua presença nesta mostra, o nome deste texto, podem tomar-se como um marco alcançado da sua própria representação.

Sara Constança
[skapsis]

Sentido [Expo. Finalistas de Pintura, Centro Cultural de Cascais, 2003]

Na crista do processo esperei. Os passos largos e lânguidos de anteriormente, ficaram aos poucos um reflexo transparente da razão que os movia. Edo reflexo passou ao vazio e do vazio à dissolução.
Agora não espero mais, formei a mensagem, contei os espaços em branco que posso preencher … são muitos ainda … mas são maleáveis … não se vão perder como os primeiros. Estes nunca se poderão perder … estes trazem-me à vida o fôlego há muito esperado … respiro sem restrições, o ar azul. Toco uma pérola de margarida … traz-me de volta a um sonho verde a perder de vista. Muitas pérolas se seguem (…), pérolas de memória feitas. Memorias antigas, ancestrais. Agora é a minha vez … tenho o dom da transmutação. Trago comigo o sentido do limite desflorado … um ressonante renascer, esculpido em tramas, de ramas, de cerejeira. Flexível e claro como o vento.

2003 (adaptado)

Tensão

A tensão não permite escolha, na falsa descompressão de conceitos, a eterna insatisfação.
O caos organizado, recruzado, preso à eminência de ser repetido e profundamente marcado,
provoca à superfície buscas (fugas) que emergem das mais diversas formas.
A cristalização é uma dessas formas, o ciclo apreendido como fuga ao novo hostil,
a experiência do pré-nascimento. O retorno ao ventre.

Voltar a ser a parte que falta, que sempre parece escapar,
apenas porque não existe longe de mim.
Imerso no calor branco seus gestos não emitem qualquer som.
Procuro-me sem me querer encontrar, espero-me sem me esperar …
Espero na virtude das coisas um princípio sem fim.
Essa parte está comigo, poderia agarrá-la, mas deixo-me perder …
… como é branca a calma do desejo.

Palavras que persistem na sua própria evidência,
buscando sozinhas a sua própria constatação anterior.
Naturezas fugidias, um lento evoluir factos cambaleantes e virtudes eternas.
A força de apenas ser, dentro do mundo. Temer o choque dos titãs.
Elevar acima das torres o sentimento de viver.
A matéria formadora é sempre orgânica, tudo emerge dela.
Os elementos nascem, formam estruturas, pensamentos, relações e voltam a fundir-se com o todo.
Por contradição essa mesma matéria sonha com o romper dos ciclos.

1999 (adaptado)

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